Archive for julho \29\UTC 2008

PIRATARIAS EM LOC-ADORAS

julho 29, 2008

Seguindo a série sobre a pirataria…

Ontem, como estou de férias, fui a locadora pegar alguns filmes para viajar em outros mundos. Escolhi alguns e fui a sessão musicais. Entre Spanish Fly e It´s Alive, vejo em lançamentos, vários shows, numa capinha jeans “michuruca”, com os dizeres WEMBLEY STADIUM LIVE INCONCERT. Shows do Queen, Toto, The Cure, Genesis, Boy George, Eric Clapton entre outros…

Fiquei curioso. Peguei a capa do DVD do Cure, que tinha uma foto datada de 84 e vi que não tinha informação sobre o show, nem data e nem créditos a músicos, só o repertório. pelas músicas notei ser possível a época entre 85 e 87, pois não tinha nenhuma música do disco Kiss me. Peguei a do Genesis e Eric Clapton, a mesma coisa. Nunca ouvi falar em show do Cure em Wembley, sei que tocaram lá, mas filmado, nunca. Loquei-o.

Depois de assistir ao filme Sangue Negro, e querer exorcizar meus pecados, coloquei um pouco de cura para alma. A grande surpresa, o show não era em Wembley, nem em Londres, nem no Reino Unido e sim na França, numa cidade chamada Orange, mais especificamente na Catedral de Notre-Dame-de-Nazareth, do século XII. O único teatro romano que guarda a estátua imperial original de César Augusto, que neste caso está situada em meio do cenário. Esse show foi filmado em 87, pelo diretor Tim Pope.

O interessante é que na capa tem um selo escrito “Silver discos” e mais em baixo em letras pequenas produzido na zona franca de manaus, autorizado por “Top Sound – The Classical masters”. Mas quem controla os direitos autorais desse vídeo era o selo Fiction Records da Elektra Entertainment que foi comprada, em 2004, pela Atlantic Records.

A conclusão disso tudo é que, ou a Atlantic não sabe nada sobre seus artistas, ou estamos defronte a uma pirataria de peito aberto entre empresas, com CNPJ e tudo. As grandes gravadoras investem agora no Blue-ray para poder vender seus produtos. Um disco que suporta mais de 10x o tamanho de um DVD convencional. Mas vai demorar muito até todos trocarem seus aparelhos de Disco Vídeo Digital por um Raio-Azul. E, até lá, a internet terá transmissão de dados que devem suportar shows inteiros em alta definição, e “free”, em algum lugar no mundo virtual.

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O DIGITAL E O FÃ DE ROCK

julho 20, 2008

Quinta-feira passada Eu e o Warlen fomos a Belo Horizonte e resolvemos visitar a “MECA” da música na capital mineira: A “Galeria da Praça Sete”. Em meio a olhos pintados de preto, moicanos, coturnos e camisetas do Ragnarok, Premiata e Venegoni e co., encontramos lojistas apaixonados e que tentam sobreviver da música, igual aos nossos heróis sonoros. Nos deliciamos na procura de Lps, shows e albuns, na maioria raros. Havia muitos anos que não visitávamos a “Mesquita” dos roqueiros. Para a nossa surpresa a pirataria está muito mais forte na galeria, que os originais.

Os shows, raríssimos, em dvds copiados, ficam as pilhas em cima dos vinís, papéis de xerox colorido com as capas em cima, no canto dos balcões, e as embalagens de dvds num canto atrás dos mesmos. Perguntei a um proprietário de loja se a pirataria não era ruím para o estabelecimento e ele disse. “Se não entrarmos no esquema da pirataria teremos que fechar as portas! Olha só esse filme (Control – de Anton Corbjin sobre a Ian Curtis vocalista do Joy Division), nem nos cimenas daqui passou. Se eu vendo um original por R$ 50,00 ele se transforma em no mínimo 5, e fica mais difícil a venda. Eu vendendo a cópia a R$ 15,00, vendo uns 10 e dá para ter minha vida normal e manter minha loja”, ironiza o comerciante.

A Mídia digital é barata, mas alguns dvds vindo da Alemanha, Inglaterra, EUA ou França sofrem uma taxa de importação que pesa no bolso do consumidor. Essas obras circulam em torno de R$ 60,00 à R$ 120,00. Cada cd ou dvd “virgem” pode custar, em lojas especializadas, cerca de R$ 0,80. Com a capinha de plástico por volta de R$ 3,00; tornando assim um um paraíso para a cópia discriminada. Para outro lojista do local a margem de lucro do original não é suficiente para manter o estabelecimento. “Com o original eu consigo um lucro de 15 a 20%, mas o produto não tem saída. Com as cópias, o fã de rock consegue curtir as músicas e a gente consegue trabalhar pagando o aluguel e as contas”, apela o proprientario.

UM DOS BARRETOS

julho 11, 2008

Fui convidado, pela instituição em que estudo, a fazer uma entrevista com o Bruno Barreto. Diretor pertencente a família que, talvez, detém a maior produção cinematográfica da América Latina. Tentei honrar o convite e trazer informação a todos com esse notável brasileiro de sucesso internacional, mas o nervosísmo ficava mordendo meus calcanhares.

Quem estiver afim de assistir a entrevista é só clicar aqui

FORMIGAS DE CAMISETAS PRETAS

julho 3, 2008

Bem, este é o título do livro do Paulo. Depois de largar as salas de aula e trabalhar com pessoas que necessitam aprender português em casa, acabou sobrando tempo para escrever durante a semana.

O livro conta a estória de André Eustáquio, um “redneck” formiguense que…                                                                    …bem, este é o primeiro capítulo.

FORMIGAS DE CAMISETAS PRETAS

Paulo Lima Soraggi

Da solidão da poltrona do fundo de um ônibus pode-se ver qualquer coisa pela janela. Rios deslizando em corredores de concreto, homens de rua atuando em seus papelões, mulheres-sacola, informações dependuradas, carros fumando pressa.

Se as cenas não estiverem interessantes, inventa-se um estímulo, um filme de qualquer memória minimamente agradável em que damos qualquer beijo ou em que ganhamos qualquer elogio. Mas nada daquilo era transmitido para mim. Eu fui abandonado lentamente por Belo Horizonte e não conseguia ver nada desde que o ônibus deixou a rodoviária. A vidinha nos bares e o empreguinho no banco me expulsaram com tanta classe que meus sonhos de cursinho e de boa faculdade saíram sem doer nada. A janela só me mostrava quem eu era em novembro de 1.991, um fantasma com uma pergunta: “O que vou fazer em Formiga?”.

Durante quatro anos trabalhei como faz-tudo e mula de documentos em uma agência desses bancos pequenos que servem para seus diretores decretarem falência e saírem ainda mais ricos e os funcionários desempregados. A agência ficava na rua Pernambuco, quase com Cristóvão Colombo, na Savassi. Quando comecei lá, pensava que depois dos vinte anos ia realizar meu sonho de adolescência: estudar na Universidade Federal. Desde os dezessete, via meus colegas cumprirem o rito de passagem dos playboys com cabeça: cursinho da moda; repúblicas luxuriantes longe dos pais; cabeça raspada de calouro. Filho de um pintor de carros e de uma costureira e aluno de um colégio de freiras com bolsa da prefeitura, eu tirava ótimas notas, mas me sentia um anjo barrado nos portais do céu. A cada colega que ia estudar em BH, mais eu atolava na frustração movediça de não ter condições de ir. Cheguei a apelar para a autoflagelação: dava aulas de Português para alguns colegas que fariam o vestibular somente como treinamento. A sensação de ficar para trás fez com que eu começasse a andar chapado.

Depois de trabalhar na tipografia do meu tio por uma esmola semanal, consegui o tal emprego na capital. Um cara de Formiga era diretor de um banco de segunda e me arrumou um serviço num banco de terceira. Morava de favor com meu padrinho e dois primos e trabalhava de segunda a sexta de oito às duas. A merreca que eu ganhava não deu espaço pros meus planos, mas meu fim-de-semana começava cedo demais para que eu choramingasse. Como o cursinho e a UFMG tinham dançado mesmo, continuei me chapando. Festinhas em repúblicas de chegados, cineminha doido, showzinhos de rock, doze comprimidos de Benflogim com chope no Central Shopping para ver cometinhas em volta das mulheres. Algo me soprava que aquele emprego não iria durar mesmo. O chefe da seção de cobrança não ia com a minha cara ostensivamente e nunca me chamava pelo nome. Era “Formiga, vai levar isso”, “Formiga, vai limpar aquilo”. Pra quem não sabia fazer café, até que durei muito naquela agência.

Naquele ônibus eu não via esse filme. Só a pergunta: “O que eu, André Eustáquio Fortini, vou fazer em Formiga?” Como não tinha a menor idéia, sem perceber comecei a cantarolar duas músicas do Cat Stevens: “Where do the children play” e “I love my dog”. Pensei em fazer como ele: abandonar tudo e me tornar um religioso arredio. O problema é que eu não tinha nada para abandonar, nem fé para me conduzir. Sozinho no fundão do ônibus, pude até soltar a voz e cantei aquelas músicas sem parar até Divinópolis. Nunca tinha me sentido tão vazio e sem propósito. Eu estava parecendo um cara que perdeu um olho e se aposentou mais cedo, mas morrendo de medo de acabar gostando.