
Piolho
Outro dia estava me lembrando da infância. Tive muito piolho. E não era por falta de cuidados, não. Minha mãe vivia me intoxicando com Neocid. Eu achava agradável o som da latinha sendo apertada.
Tinha vergonha perto de outras pessoas. Às vezes a cabeça começava a coçar, eu tentava suportar, dava uma despistada… e a mão ia à cabeça. Era insuportável. Cuidava, cuidava, mas a escola me incluía de novo. Sempre havia a expressão da mãe: “nó, que boi!!!”
Não sei se está assim, mas quase não ouço falar depois da erradicação em mim. Outro dia folheando uma revista italiana, vi uma propaganda de um veneno contra piolho – pidocchio. Não é só no Brasil então…
Lembrei-me também de ver um esquete de ‘Os Trapalhões’ em que o Didi chamava um jogador de baralho de piolho e recebia tapa até não puder mais. Quanto mais tapa levava, mais chamava o cara de piolho. Até que o indivíduo amarrou o trapalhão, tapou a boca dele com esparadrapo. Termina com um close nas mãos amarradas do Didi representando a morte de um piolho entre as unhas. Muito engraçado. Sou do tempo de Os Trapalhões, com muito prazer.
Na hora do efeito do Neocid era uma loucura. “Não coça, não. Eles estão morrendo. È bom para matar as lêndeas.” Dizia a mãe. “Aaahhhh!!!!” Era insuportável. Depois vinha a festa. Comigo acontecia assim: minha mãe pegava uma folha de papel branca, ou um pano branco, passava o pente-fino – isso deu origem a nome de operação de polícia – escutava o som deles caindo. Era um massacre. Outra maneira era a dos símios – gostava de ver aquela cena na Tv da macaca lá com o filhinho – , mamãe, num sábado à tarde, colocava-me no colo e começava aquele carinho forçado, e eu escutava o som do tic-toc, às vezes gordo, toc, às vezes magro, tic, claro, dependia do tamanho. Mas era até gostoso aquelas mãos nos meus cabelos, porém tinha sábado… “Tá bom, mãe, deixa eu jogar bola!”
E foi assim por um tempo. Tinha colega meu com o cabelo encrespado de lêndeas. “Não fica andando com ele, não, tá infestado de piolho”. Não era maldade, pois dava um trabalho depois… Tinha amigo careca, quase careca, mas eu não aceitava isso. Era demais, enfrentava a poeira de pó branco e a operação pente-fino. O carinho era muito bom também.
A gente pensa cada coisa… Deve ter acontecido com muitos outros garotos a mesma história. Uma lembrança, apesar da situação, muito agradável.









